Entre os bens mais preciosos preservados pelo Instituto Sébastien Sisson encontram-se os dois volumes originais da obra Galeria dos Brasileiros Ilustres (Os Contemporâneos), concebida, editada e em grande parte executada por Sébastien Auguste Sisson no auge do Brasil Imperial.
Mais do que um livro raro, trata-se de um exemplar excepcional, historicamente significativo, que permaneceu na família do artista e hoje integra o acervo do Instituto, constituindo testemunho direto do projeto editorial e iconográfico idealizado pelo próprio Sisson.
Um exemplar singular
O Instituto é detentor de um exemplar encadernado em dois volumes, no formato original in-folio (45 x 58 cm), dimensão monumental concebida para valorizar a imponência do projeto e permitir a reprodução minuciosa dos retratos litográficos.
Este conjunto apresenta uma encadernação que o distingue dos raríssimos exemplares existentes em bibliotecas:
- Encadernação de luxo oitocentista, em capa dura revestida em percalina vermelha de alta qualidade;
- Ferros dourados profusos, com molduras ornamentadas nas bordas;
- Brasão de Armas do Império do Brasil em destaque na capa, reforçando o caráter oficial e patriótico da publicação;
- Lombadas com nervuras e títulos dourados, evidenciando refinado trabalho artesanal.
A encadernação, distinta das versões conhecidas em instituições públicas, indica iniciativa do próprio artista e confere ao exemplar caráter autoral e valor patrimonial de excepcional relevância.
Um projeto de dimensão nacional
Em gratidão à acolhida que encontrou no Império do Brasil, Sisson assumiu “sobre os ombros” a árdua tarefa de editar a Galeria dos Brasileiros Ilustres, movido pela convicção de que era necessário registrar, de forma visual e textual, os homens que contribuíram para o progresso moral, político e material da nação.
A obra reúne 90 gravuras litográficas, todas executadas por Sisson a partir de pinturas a óleo, desenhos e fotografias, acompanhadas das assinaturas dos retratados e de 90 biografias.
Esses retratos constituem documentos iconográficos fundamentais para a compreensão das elites políticas, administrativas e intelectuais do Brasil Imperial.
Entre os biografados estão figuras como:
- Dom Pedro II
- Marquês de Paraná
- Eusébio de Queirós
- Barão de Mauá
- José Bonifácio de Andrada e Silva
O primeiro fascículo foi publicado em 14 de setembro de 1857, inaugurando uma estratégia editorial que visava facilitar a aquisição da obra: cada fascículo continha três retratos e suas respectivas biografias.
Em 1859 foi concluído o primeiro volume, com 45 retratos. O último fascículo foi publicado em 1861, encerrando um projeto inicialmente planejado para três volumes, mas finalizado em dois, após quatro anos de intensa dedicação.
As biografias e seus colaboradores
Embora os textos biográficos tenham sido inicialmente idealizados para serem redigidos integralmente por José de Alencar, a execução contou com a colaboração de diversos intelectuais do período, entre eles:
- Bezerra de Menezes
- Manuel de Araújo Porto-Alegre
- Barão de Mauá
- Antônio Ferreira Viana
A autoria individual das biografias não foi explicitamente identificada na publicação, o que abre um campo de investigação ainda pouco explorado e que constitui objeto de pesquisa inédita vinculada ao Instituto.
Lugar na iconografia brasileira
A relevância histórica da Galeria foi reconhecida ao longo do tempo. A obra foi reeditada em 1948 pela Livraria Martins Editora e, posteriormente, em 1999, pelo Senado Federal, integrando a coleção Brasil 500 Anos.
Como observou Rubens Borba de Moraes:
“A Galeria de Sisson está entre as quatro obras consideradas fundamentais da iconografia brasileira do século XIX. Enquanto as de Debret, Rugendas e Ribeyrolles tratam dos usos, costumes e paisagens do Brasil, a de Sisson trata do estudo dos homens, fornecendo, através de suas biografias e retratos, um espelho fiel de suas personalidades e da época em que viveram.”
De fato, ao lado das produções de Jean-Baptiste Debret, Johann Moritz Rugendas e Charles Ribeyrolles, a obra de Sisson ocupa posição central na construção da memória visual do Brasil oitocentista.
Um patrimônio preservado
O exemplar pertencente ao Instituto Sébastien Sisson não é apenas raro: é um testemunho material da ambição artística e editorial de seu autor. Seu formato monumental, sua encadernação de luxo e sua proveniência familiar conferem-lhe singularidade e autenticidade inestimáveis.
Preservar esses volumes significa preservar um capítulo essencial da história cultural e política do Brasil, um espelho do Império gravado em pedra litográfica e encadernado com a solenidade de uma obra de Estado.
A Galeria dos Brasileiros Ilustres permanece, assim, não apenas como obra de arte e documento histórico, mas como símbolo da perseverança de um artista que compreendeu, com rara lucidez, a importância de fixar, em imagem e palavra, a memória de seu tempo.


